Mães e Pais na 1ª Pessoa

Rita Mendes 

Barriga Mendinha

“A vida é assim” mas quem me dera que não fosse

“A vida é assim”… e é assim que temos que vivê-la e tirar dela o melhor possível..

 Mas há momentos, epá… há momentos… em que eu penso tantooooo em como gostaria que a vida “não fosse assim” e que eu e os meus filhos e eu mesma não nos tivéssemos que separar nunca.

A verdade é que a maioria dos filhos de pais separados, se filhos do mesmo pai e mãe, acabam por andar sempre juntos nas “bolandas” dos fins de semana alternados e dias e noites nas casas de cada um dos progenitores. Tenho amigas que, divorciadas e tendo um, dois ou mais filhos do casamento já finalizado… brincam, aceitando a “coisas” como podem e até tirando partido da situação, dizem coisas como: ” Até nem é mau, uma semana sou super mãe outra tenho uma alta vida de mulher solteira” ou ” Este fim de semana estou super focada nos putos, mas para o outro, estão no pai e posso fazer o que quiser!”…. Bem , mas isto, acontece só a quem tem filhos do mesmo pai.

E muita coisa já se escreveu, teorizou, sobre o melhor para os filhos, o melhor para os pais, sobre os sentimentos da separação, os traumas, os benefícios, saudades, retorno a casa… sei lá… coisas cada vez mais normais para os dias que correm, porque os divórcios ou ausência de um dos progenitores é também cada vez mais corrente.

Mas meu caso e no de algumas (poucas) outras “criaturas” por aí pairam nesta estranha e aparentemente moderna sociedade, quando os pais são dois ( ou quiçá 3 ou mais… pffff… nem quero imaginar o que será), e quando “ainda” (lol) estamos com um deles existe, para além dos normais sentimentos de saudade que se tem quando um está fora.. a sensação de que é “injusto” para esse que se ausenta, todos os programas e momentos que , em família vivemos sem ele e por outro lado, para aquele que fica, pois não entende o porquê do irmão ou irmã estar agora… mas daqui a dois dias não.

Juro-vos que vivo esta angústia quase em segredo. Como podem imaginar, ao comentar com próximos estes sentimentos dizem (talvez para me apazigar, talvez por alguma frieza não sei bem) que “é normal” (odeio esta frase feita que no fundo não diz nada de nada), que eles se adaptam na boa, que quem sente mais somos nós, que não tenho que me sentir culpada.. sim eu sei, minha gente, mas e então? E se eu vos disser que eles sentem essa mudança? Mesmo na sua embirrice natural de irmãos, a verdade é que durante dias e dias a presença nas rotinas do outro é constante e depois, quando o mais velho se “pisga” para casa do pai e fica 2, 3 ou até 4 dias (acontece pontualmente mas acontece)… a minha mais pequena anda um bom bocado desasada. Ai… e como isso me doi.

Vê-la, pela casa a fazer tudo com um ar despachado… e sempre a chamar pelo mano, como se ele estivesse mesmo atrás dela, mas não está … Ela ainda é muito “troncha moncha”, fala à trapalhona mas já sabe muito bem o que quer e o que faz. E a verdade é que as nossas rotinas a 3 ( ou a 4, quando está o pai) já são tão nossas e repetitivas que ela já as conhece de cor. Escolhemos a roupa para um e depois para outro e colocamos em cima da mesinha para o doutro dia. Um lava os dentes e o outro também com a sua escovinha igual mas de outra cor. A mesa baixinha das suas refeições tem uma cadeira frente a frente (que fica vazia quando o Afonsinho não está), mas ela chega a colocar o pratinho de plástico para ele e…para sublinhar tudo isto… desde há um mês e meio atrás que eles dormem juntos na mesma cama, porque o Luz ganhou (como se previa lol) medo a dormir no beliche do mano e só se sentem confortáveis juntos.

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Tenho vivido este dilema, com alguma angústia, uma angústica que no fundo será inevitável viver para sempre!!! Oh God!! E desta vez, eu que costumo dizer que a minha Matita é a minha “princesa rebelde” e o Afonso Luz o meu “vidrinho sensível”… sinto que é ela que sofre mais. No fundo, ele sai da nossa casa e parte para o “divertimento” do “fim de semana de pai”, os locais são os outros, as pessoas diferentes das com que nos damos por aqui, as rotinas também. Não digo que não tenha uma ou outra saudade, mas felizmente sei que está feliz e está “na dele”. Epá… e graças a Deus, senão assim, eu não choraria por uma, choraria por dois…

 Este texto, veio hoje a lume, porque depois de uma série de situações que vamos contornando (como dizer que não quer leitinho porque o “Atcontcho” não está e aponta para o copo vazio dele), no domingo à noite, na hora de ir para a caminha começou a chamar por ele, de novo. Vai daí, o Hugo teve a ideia de ligarmos ao pai do Afonso para ela falar com ele pelo  telefone. E pronto foi aí que a mamã Rita virou uma torneirinha choramingas…Fiquei de fora a assistir quietinha: Falaram os dois feitos palerminhas e num dialeto lá deles ( O Afonso fica mais abébézado quando fala com a mana mas lá se entendem, riem e chegam às suas conclusões), e a Matita, decidida como só ela, tirou-nos o telefone da mão, deitou-se sozinha, chegou-se para o lado onde ela dorme em vez de se deixar estar no meio da cama, contou-lhe o fim de semana dela ( “Ah motos, ah popó, ah avó, ah mãe, ah pai, ah bolo, ah chupa, ah parque, ah menino” etc, etc… e depois (ela que estava a chorar) mandou lhe um beijinho, deu uma risadinha, colocou o telefone na almofada onde o mano dorme normalmente, tapou-se sozinha e… acalmou e adormeceu <3… Assim.

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A mamã no meio disto? Coração apertadinho mas a tentar tirar o melhor daquilo.. que gostava que não fosse assim… A ligação deles está a construir-se. Tão pequeninos e já tão certos de que a presença (física ou só pela certeza de que estão do outro lado) dos manos é mesmo algo importante e indestrutível … uma viagem sem bilhete de volta, só muita cumplicidade e turras pelo meio, tal e qual tem que ser, sem tirar nem por. Mesmo com fins de de semana e dias fora da rotina normal dos meus anjos-diabretes…

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