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Psicologia

1 de Outubro de 2014

A morte explicada às crianças

luto

Ninguém está preparado para a perda de alguém que nos é querido. Trate-se de um familiar, um amigo próximo ou até um animal de estimação a perda é sempre vivida com sofrimento e, muitas vezes, incompreensão e zanga.

Enquanto os adultos certamente já tiveram que lidar com perdas várias ao longo das suas vidas, com maior ou menor sucesso, quando chega a hora de dar “a notícia” a uma criança, parece que todos aqueles recursos que usam consigo mesmos caiem por terra. Como fazê-lo? O que dizer? O que “filtrar” ou omitir? O que esperar? Como se comportar? Estas são as dúvidas que mais frequentemente nos assolam. O “dar a notícia” é em si mesmo algo de muito difícil.

Deixamos algumas dicas e estratégias para o ajudar a apoiar os mais novos nestes momentos difíceis.

Ao comunicar o falecimento de alguém próximo é fundamental ter em conta a idade da criança, pois o grau de compreensão de uma criança sobre o tema da “morte” varia muito em função da etapa de desenvolvimento em que se encontra, das experiências prévias de perda e características de personalidade, por isso é importante que o discurso do adulto se adeqúe à capacidade de compreensão da criança.

Outro aspecto igualmente importante é a honestidade. Muitas vezes, e com a melhor das intenções, tentamos proteger as crianças poupando-as de saber verdades duras. Assim, acabamos por contar meias-verdades que “têm perna curta”, é o caso dos eufemismos e das metáforas como “partiu”, “foi para o céu”… Até aos 5 ou 6 anos de idade as crianças privilegiam a compreensão literal do que lhes é dito, têm dificuldade em compreender metáforas, pelo que podem não integrar a real dimensão do sucedido e assim permanecerem com dúvidas e até expectativas irrealistas sobre o regresso da pessoa.

Quando se trata de alguém que estava doente ou em idade avançada uma forma de abordar o assunto é explicar que o corpo “deixou de funcionar”, sublinhando que isso é natural e irreparável. Trata-se de uma metáfora mais concreta e de mais fácil compreensão para crianças pequenas. Também em casos de acidente é possível recorrer a esta forma de explicar a morte.

O conceito de morte é difícil para os mais novos, especialmente na sua inviabilidade e irreversibilidade, mas a sua gradual compreensão e aceitação é importante. É natural que algumas questões surjam, como “onde está agora?”, “ o que lhe vai acontecer?”. Aqui há duas dimensões a considerar: a primeira diz respeito aos aspetos mais concretos a segunda aos mais espirituais. Assim, pode ser útil explicar que quando alguém morre o corpo da pessoa é guardado no cemitério e se pode visitar e pensar na pessoa. Por outro lado, e sem descurar o anterior, esta pode ser uma altura para partilhar com a criança as suas crenças espirituais.

Os adolescentes por seu lado já integraram este conceito, debatem-se sim, muitas vezes, com questões mais existenciais como o sentido da vida e da morte, ou a injustiça inerente à perda. Por compreenderem melhor este conceito podem sentir uma maior vulnerabilidade e insegurança. Empatizar com os seus receios e tristeza, ao mesmo tempo que oferece segurança é muito importante.

Independentemente da idade, as crianças lidam melhor com a perda quando lhes são dadas explicações simples, claras e verdadeiras sobre a mesma. Quando isso não acontece abrimos a porta à possibilidade de fantasias assustadoras ou a uma mais difícil aceitação da perda.

As emoções são difíceis de gerir nestes momentos. Muitos adultos tentam proteger as crianças da vivência de tristeza nestes momentos, evitando chorar à sua frente, por exemplo. Apesar de ser necessário algum bom senso, não há nada de errado em mostrar a sua tristeza à criança. Pelo contrário. Assegure a criança de que é natural sentir-se triste, chorar, ter saudades e valide esses sentimentos mostrando que os partilha. Dê tempo à expressão emocional da dor. Permitir-nos entristecer é importante e saudável.

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Helena Almeida

Psicóloga Clínica

Oficina de Psicologia

Equipa Mindkiddo – área infanto-juvenil

Mestrado Integrado em Psicologia – Área de Clínica, Instituto Superior de Psicologia Aplicada (2012);

Licenciatura em Ensino Básico 1.º Ciclo, Escola Superior de Educação de Lisboa (2004)