Espaço Família | Vem aí um irmão

Psicologia Clinica

12 de Junho de 2013

A morte e as crianças

Foi um dia muito triste… parece que ainda ontem tinha 5 anos e estava sentada no cadeirão lá de casa ao colo da minha avó Bé enquanto me mostrava o álbum de fotografias. Eram horas de histórias e gargalhadas, sempre acompanhadas pelos biscoitos de canela e limão que ainda hoje faço!  “ Não chora…é um dói dói na barriga?” pergunta-me a M. preocupada. Percebi que estava na altura de conversarmos sobre a morte da  Avó Bé.

Sabemos que falar sobre a morte não é fácil, muito menos quando temos que abordá-lo com uma criança e embora seja a única certeza que temos na vida, pois o ciclo natural é nascer, crescer e morrer, este assunto pode tornar-se bastante desconfortável quanto sentimos que não temos todas as respostas. Em especial as crianças mais pequenas que esperam que os pais saibam tudo. Só que acontece que este é um assunto com o qual mesmo os adultos têm dificuldade em lidar, no entanto, a forma de tratar a morte deve ser encarada com naturalidade com o fim de ensinar as crianças a não terem medo, preconceitos ou fantasias irreais sobre ela.

Compreendem as crianças o conceito de morte?

É útil perceber de que forma é que a criança vai absorvendo o conceito da morte em função da idade e isso pode igualmente ajudar na forma como devemos abordar este assunto.

Entre os 3 e os 5 anos – Ainda não compreendem o conceito de “eternidade” e não etendem que o animal de estimação ou familiar não voltará para brincar e, por muito que custe aos pais, é normal perguntarem com frequência quando volta. Não nos podemos esquecer que muitas vezes os próprios desenhos animados que a criança vê nesta idade morrem e depois já estão outra vez vivos. Assim, para uma criança desta idade, a morte é algo impessoal, reversível e temporário.

Entre os 5 e os 7 anos – As perguntas sobre a morte, geralmente, começam a surgir por volta dos 5 anos de idade, quando passam a compreender o conceito de tempo, no entando ainda existe dificuldade em entender a morte como algo que acontece a todos, permanente e inevitável. Mesmo quando alguém próximo morre não entendem a morte como algo que lhes pode acontecer.

A partir dos 7 anos – Começam a entender que o conceito temporal de morte é definitivo e irreversível. Têm noção de que todas as coisas vivas morrem, já é algo que vêem como mais pessoal.

Contar ou não contar? Como devemos falar da morte às crianças?

Não queremos ver os pequenos a sofrer e a nossa tendência instintiva é protegê-los da dor e fazemo-lo muitas vezes, não contando a verdade, omitindo factos ou até mesmo inventado histórias para minimizar o sofrimento. A experiência, nestas situações, demonstra que há benefícios em a criança conhecer a verdade desde o início. Se a criança fizer questões, tente não fugir mas evite as respostas, “foi para o céu”, “está a dormir”, “está a descansar”, “está num sono eterno”, “foi-se embora”, uma vez que só vai servir para lhe criar medos de que um dia o pai ou a mãe não apareçam, ou mesmo de ter medo de ir dormir e não acordar. Diga sempre a verdade dando respostas breves e simples, “quando alguém morre o corpo deixa de funcionar, não come, não dorme, mas também já não sente dores”.

Devem as crianças ir ao funeral?

O funeral é um momento de despedida e por isso a criança deve ter oportunidade de ser questionada se quer ou não despedir-se de quem morreu. 
Deve-se pensar em como preparar e acolher a criança nestas circunstâncias explicando os rituais que envolve, de uma forma simples, para não ser um choque. No entanto, se a criança estiver assustada e não quiser ir, nunca se deve forçar. Mesmo assim é muito importante encontrar uma forma que a permita dizer adeus, por exemplo, acender uma vela, fazer um desenho, escrever um bilhetinho de despedida ou visitar o túmulo.

 Quais as reações da criança?

É provável que exiba sentimentos de tristeza, culpa, raiva e ansiedade esporadicamente, por longos períodos e geralmente em momentos inesperados. A criança pode também regredir, tornar-se demasiado dependente ou simplesmente ficar muito activa porque não sabe lidar com a sua dor. Por vezes pode “esquecer” que o familiar morreu ou persistir na crença de que ele ainda vive e isto é normal nas primeiras semanas após a morte.

 Como devemos agir?

É importante que deixe a criança decidir como faz o seu luto. Ela pode chorar ou não.
 As crianças pequenas geralmente tem dificuldade em conseguir recordar uma pessoa que tenha morrido e não ter estas memórias pode ser uma situação muito complicada e difícil para a criança, por isso uma fotografia pode trazer um grande conforto. Outro aspecto muito importante, é que mantenha as rotinas, quanto mais depressa o fizer melhor. As rotinas dão às crianças uma sensação de segurança depois de um acontecimento marcante.
 Se também está a sofrer, não esconda as suas emoções, pois ao fazê-lo só vai criar mais angústia à criança. Explique que os adultos por vezes precisam de chorar porque se sentem tristes, com saudades de quem morreu e que não há problema em fazê-lo. 
As crianças “apanham” facilmente as mudanças de humor e percebem que algo não está bem.

Existem sinais de alerta de que a criança não consegue processar o luto. Quais são?

  • Um longo período de depressão, com perda de interesse em actividades e eventos do dia-a-dia;
  • Dificuldades para dormir, perda do apetite ou medo prolongado de ficar sozinha;
  • Agir como uma criança mais nova por muito tempo;
  • Negar que o familiar tenha morrido;
  • Imitar a pessoa morta o tempo todo;
  • Falar repetidamente sobre ir ter com a pessoa morta, querer morrer;
  • Isolar-se dos amigos;
  • Queda súbita e importante do rendimento escolar ou recusar-se a ir à escola;

Estes sinais indicam que a ajuda de um profissional deve ser procurada.

Drª Olga Reis
Psicóloga clínica
oreivainu.blogspot.pt