Mães e Pais na 1ª Pessoa

Rita Mendes 

Barriga Mendinha

A minha quadra Natalícia foi passada… no hospital com a Matilde (das) Estrela(s) :(

Está quase a passar uma semana que a Matilde Estrela saiu do hospital. Uma bronquelite que evoluiu para pneumonia (que lhe infectou o pulmão direito e felizmente não passou ao outro) e que me/nos fez passar dos maiores sustos… e o Natal perto da minha menina internada na urgência.

Apesar de ter acesso à  net e por isso, continuar a “alimentar” o FB e o blogue da Barriga, a verdade é que andei em rodeios e rodeios para que não se soubesse na altura onde e como estava, senão, a imprensa estaria em cima, divulgaria a notícia e, quem sabe, até apareceria por lá… Evitei-o e ainda bem. Viver um risco de vida com um filho bebé já é suficientemente assustador para ter que dar mais justificações a não ser aos nossos próximos.

A Matilde pegou uma constipação do mano mais velho, que a pegou na escola e que nos pegou a todos. O normal, não fosse a Matita tão “tenrinha” e a coisa viral tivesse piorado.

Duas passagens pelas urgências depois – aspiraram-na, observaram-na e mandaram-na para casa -, na tarde de 24 de Dezembro, a caminho de casa dos meus sogros, decidimos passar lá só “para ficar descansados”… Não saímos  durante uma semana :(

Acabei por ter que orientar a vida para ficar por lá a acompanhá-la sempre enquanto aquele bebé tão mínimo era espetado com catéteres e agulhas, aspirado com tubos até ao estômagozinho e ficava medicado e ligado a varias máquinas que o monitorizavam…

Tive tempo para pensar muito, no meio das poucas horas de sono e do medo. De sentir muito, na condição de mãe aflita. De equacionar o que seria se uma tragédia pessoal acontecesse e como será a dor das famílias a quem efectivamente acontece. Senti na pele – felizmente “só” por uma semana o que muitas mães passam nos hospitais quando fazem dessas instituições a “sua casa” para acompanhar cada respirar dos seus filhotes. Ao fim de uns dias já conhecia as pessoas, os corredores, as regras, os horários. Senti o que é estar sozinha no meio de tanta gente, o que é a fragilidade da vida…

Agora, aqui estou eu, aqui estamos nós… já recuperadas. Da doença e do susto. E a decidir esta partilha, por acreditar ser importante para todas as mães que acompanham este blogue. Pode acontecer a todas, com maior ou menor gravidade. E as que já passaram por horas de aperto assim, saberão que a vossa “Barriga Mendinha” a partir de agora “não fala de cor”, também já lá esteve…

Aqui ficam as imagens possíveis, sentidas e que me acompanharão para sempre. Este foi o primeiro Natal com a minha filhota, que saiu do hospital exactamente no dia em que fez 2 meses.

É uma Guerreira das Estrelas. Te amo Matilde …

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Começámos assim… a testar a saturação de oxigénio da Matilde, que descobrimos estar abaixo dos 90. Foi por isso que ela foi internada. Pouco oxigénio no sangue e no cérebro podem causar sequelas graves. Nem pensar em arriscar deixá-la sair do hospital :(

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Noite de Natal… Esta foi a minha consoada na cantina do Hospital S. Francisco Xavier. Arroz de pato, sopa, sumol, gelatina e uma sala literalmente fria e vazia, à exepção da rapariga do refeitório e e uma senhora da limpeza, que, ao fundo, assistiam à emissão de Natal da “Casa dos Segredos”…

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O quarto dos cuidados intensivos tinha 3 caminhas que estavam, dia 24, todas ocupadas . Depois, um a um, os bebés, foram “subindo” para o andar da pediatria onde ficavam já só sob observação. Aqui, neste quartinho, as máquinas a que os bebés estavam ligados apitavam toda a noite e a maioria deles chorava cada vez que isso acontecia…

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A minha cama improvisada durante 6 noites. Um cadeirão desdobrável, ao lado da caminha de grades da Matilde, que só abandonei no dia 25 para ir dar um mimo de Natal ao meu Afonso, que também tinha direito a ter a mãe um bocadinho presente no 1º Natal com mais percepção das coisas… Como de noite era difícil dormir, tentava algumas sestas durante a tarde, nos intervalos dos cuidados da minha bebé e dos dos seus coleguinhas.

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O cansaço já era tanto que lá para o 3º dia comecei a ficar com menos leite. As enfermeiras disseram-me ser normal e a partir daí (e porque a Matita estava a ser alimentada por sonda e não mamava) comecei ainda a tentar tirar mais leite com a máquina elétrica do hospital para estimular o seu fabrico, porque ficaria muito triste se isso acontecesse.

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A minha “colega” da cama ao lado, a mãe do João, outro menino doente de 2 mesinhos com bronqueolite grave. Era a Neolondiza, a quem eu chamava Marisa e que era uma guineense mãe de três crias, vinda de Queluz de Baixo… Engraçado como as circunstâncias unem pessoas que nada tem a ver umas com as outras. Saímos com os bebés curados na mesma manhã e felizes uma pela outra 😉

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A amamentar a Matilde, nas suas primeiras “incursões” pela maminha depois de ter tirado a sonda. Felizmente correu bem. Ela é uma super-menina… e foi só depois de ela se conseguir alimentar sem se cansar e a respirar bem (ao fim de 7 dias) que a minha Estrelinha pode vir embora para o conforto da sua casinha.

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Às vezes o cansaço era tanto (só conseguia dormir à volta de 2, 3 horas por noite) que os cuidados à Matilde eram feitos (normalmente de 3 em 3 horas) e eu… assim, neste estado…

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O bonequinho com música que me ajudou a adormecê-la algumas das noites, quando estava irrequieta, o kit para retirar o meu leite, o paracetamol e os pingos para o nariz… porque para piorar tudo, também eu estive quase todo o tempo, doente com uma renite e constipação das valentes.

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O meu anjinho tinha uns  “óculos nasais” (os tubinhos que levam o oxigénio controlado ao organismo) e uma sonda enfiados no narizinho. E ainda um catéter na mãozinha esquerda com uma tala para não a dobrar. Dava dó vê-la assim…

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Ficou com pouca força, a minha bebécas… Dormia quase o tempo todo. E assim tinha que ser, para conseguir recuperar.

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A equipa do Hospital S. Francisco Xavier é realmente fabulosa. E acreditem que não era por “ser eu”… todos os papás e bebés eram tratados com um cuidado, carinho e as vezes até humor, tão essenciais para minimizar a dor, a preocupação, o cansaço, as dúvidas… Dentro do mau que tudo isto foi, ao menos fomos muito bem tratadas e acompanhadas. Obrigada às enfermeiras Marta, Sílvia, Graça, Maria João, Carla… e às vossas equipas… Obrigada Dra. Marta Aguiar e a todos as que nos assistiram estes dias tão longos.

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A Matilde e os outros meninos receberam um presente de Natal no dia 25. Um miminho mas que caiu tão bem não pelo valor material mas pelo simbólico…

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O leitinho que eu tirava de mim era depois administrado por sonda – um tubinho enfiado no nariz e directo ao estômago – na minha princesa, que assim e com o soro continuou forte e alimentada.

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Os cuidados e controle a meio da noite. Esta era a minha visão, encostada ao “famoso cadeirão” onde tentava dormitar…. Ter ali o meu anjinho tão perto era essencial e eu acordava a cada apito, tosse ou choro com medo que ela se engasgasse ou deixasse de respirar…

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O pai choroso… porque ia passar o Natal sem nós. Custou muito…

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A nossa Matilde e a sua cama nº 7 da Pediatria.

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Às vezes, no meio da tristeza, há pequenos pormenores que podem fazer a diferença. Este foi um desses e que me deu mais esperança e positividade. Haviam vários quartos – o quarto Planetas, o Lua… – mas não é que a nossa Matita Estrela ficou na “Sala das Estrelas”? E depois de uma semana internada, tudo acabou mesmo bem :)

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