Mães e Pais na 1ª Pessoa

Lénia Rufino 

Not so fast

A minha Mãe

Sou filha única. Não, não fui hiper-ultra-super-mega mimada, até porque a minha mãe tinha mais que fazer. Eu explico: é que ela trabalhava. Houve uma altura em que trabalhava numa fábrica onde entrava às 8h. Depois, à hora a que era suposto estar a regressar a casa, andava mais umas estações no comboio e ia para as aulas. Eu explico: a minha mãe, alentejana nascida e criada numa pequeníssima aldeia do Alentejo profundo, só estudou até à 4ª classe. Depois foi trabalhar, como normalmente acontecia por aqueles lados. Só veio viver para os subúrbios de Lisboa depois de casar, aos 22 anos. Mas toda a vida quis estudar e assim que pôde tratou de arregaçar as mangas e voltou à escola. Só que a família não vivia do ar nem de heranças e era preciso trabalhar. E ela fez isso tudo. Lembro-me de ser pequena e de só ver a minha mãe à noite. Ela entrava no trabalho às 8h e saía às 17h. Depois, em vez de ir para casa, seguia para a escola e tinha aulas, muitas vezes até às 23h. Aí sim, voltava para casa. E tratava do jantar do dia seguinte, que depois o meu pai finalizava. Ou passava a ferro. Ou estudava se havia algum teste ali ao virar da esquina.
Por norma, eu adormecia na cama com o meu pai e só via a minha mãe quando ela me pegava ao colo para me pôr na minha cama. Só estava mesmo com ela ao fim-de-semana, porque durante a semana era impossível. Portanto, o tempo para o mimo não era muito, mas a minha mãe conseguiu alcançar o objectivo dela: terminou o 12º ano quando eu terminei o 7º e nunca perdeu ano nenhum.
E o que é que eu retiro desta história? Retiro um orgulho imenso nesta mulher que, vinda de trás do sol posto, não se limitou ao que a vida parecia impor-lhe e foi à luta. Queimou pestanas, andou cansada, fez das tripas coração para conseguir estudar, com o objectivo de conseguir um emprego melhor e de me dar uma vida melhor a mim. Não conseguiu o tal emprego melhor (nunca trabalhou num escritório, que era o sonho dela), mas deu-me uma vida boa, nunca me faltou nada, pude estudar até onde quis, andei sempre vestida e calçada e nunca me faltou comida na mesa nem livros ou material escolar.
É por isso que hoje, com ela já reformada, só tenho a agradecer-lhe. Porque me ensinou o que é ser persistente, ensinou-me o que é ir além dos nossos limites e ensinou-me que o amor que se tem por um filho não se mede só pelo mimo mas também pelos sacrifícios que às vezes é preciso fazer. É a melhor mãe do mundo e é a melhor avó que os meus filhos poderiam ter.
E porque isto já vai longo… Obrigada, Mãe! Amo-te muito!!

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