Espaço Família | Como Cresceram

Opinião

26 de Julho de 2015

A mamã ganhou

FotoSara

Fim de tarde no bowling com os filhos mais velhos. Nada que me apetecesse particularmente, até porque as luzes destes espaços são fracas e nem a leitura decente de um livro permitem. Talvez um dia os meus fins de tarde sejam totalmente do meu agrado, mas por enquanto (e provavelmente durante os próprios 20 anos – altura em que, com jeitinho, consigo pôr os meus filhos todos fora de casa… e vamos ver se não tenho já netos a pedir-me para ir ao bowling!) os raros fins de tarde que temos livres de obrigações são decididos a seis. Às vezes agrada mais aos pais, às vezes agrada mais aos filhos. Às vezes só a um dos pais, às vezes só a alguns dos filhos. Com um bocadinho de boa vontade e criatividade, lá conseguimos de vez em quando que agrade a toda a gente…

Calcei os sapatos tentando convencer-me de que até ia ser giro. E, quando o jogo se iniciou, soltei o meu sorriso mais pateta e fiz-me à bola. A primeira escapou-se pela “valeta” da direta. A segunda pela “valeta” da esquerda. E os lançamentos foram quase todos assim, só de vez em quando acertando num pino ou outro, por entre macacadas que fazia para os miúdos se rirem. Resultado: último lugar no primeiro round, com uma larga distância do meu segundo filho! Nada que me incomodasse particularmente, confesso. Sempre odiei competição.

Gostar de ficar em último ninguém gosta, mas quando temos à frente dois filhos e um marido de quem gostamos, custa alguma coisa perder? Eles estavam felizes… e eu também, por eles e com eles. Era só mais um final de tarde em família. Mas a aparente felicidade começou a desmoronar quando, no segundo round, ouvi as primeiras “bocas”. Que a mamã não tinha jeito nenhum. Que eles é que faziam e aconteciam. Que eu tinha força de “miúda”. E o meu sorriso de pateta alegre começou de repente a transformar-se. É certo que eu não gostava de competir, mas estava a ser posto em causa o meu brio pessoal. Quem é que era a aselha? Quem é que só tinha bracinhos para dançar ballet? Eu?! Hum… definitivamente, os meus filhos não sabiam com quem se estavam a meter…

Iniciei o terceiro round com a certeza de que ia ganhar. Concentrei-me, respirei fundo, olhei para a bola, olhei para os pinos, e pensei para comigo que era hora de a Mamã mostrar a sua fibra. “Não me falhes, bola! É pelos meus filhos!”. E a bola voou, direitinha, até aos pinos. Não foi um strike, mas só ficou um pino no ar, que caiu na segunda bola lançada. Os filhotes bateram palmas, mas pensaram que fora apenas um golpe de sorte. Não comentei. Não festejei. Guardei-me para a jogada seguinte, onde repeti a façanha. Comecei então a vê-los acenar com a cabeça, impressionados, mas quando a terceira e a quarta jogada foram do mesmo calibre, as “bocas” de falhanço começaram a dar lugar a uns quantos “A mãe está imparável”,  “Não temos hipóteses com ela”, “O que é que lhe deu?”.

Venci o round. Mesmo à frente do papá, que não costuma dar hipóteses a ninguém. O que me deu uma enorme satisfação pessoal, não pela vitória em si (lá me interessa o bowling?), mas pela admiração que vi nos olhos dos meus filhos. E porque percebi que, de facto, todas nós, mulheres (e seres humanos em geral, mas é às mulheres que se cola normalmente o rótulo de “fraquinhas”), temos uma força imensa dentro de nós.

Não é por acaso que somos nós a carregar os filhos durante nove meses, quando supostamente os homens é que têm corpos mais fortes. Não é por acaso que somos nós a pari-los, que suportamos a dor física e resistimos noites seguidas sem dormir para lhes dar de mamar, quando supostamente os homens é que têm fibra e resistência para os grandes combates. Eles têm (não desejo roubar-lhes qualquer mérito!). Mas que ninguém duvide que nós também. E que, apesar de não precisarmos de ser nenhumas super-mulheres  (é saudável ter fraquezas, momentos, errar, desesperar!),  somos, de facto, super-mulheres. Pelo menos em potência. E quando tudo à nossa volta nos quiser esmagar, tornar invisíveis, arrasar com tudo aquilo que construímos, é preciso tomarmos consciência de que temos em nós (e eu acredito mesmo que temos sempre) a força necessária para nos reerguermos, para voltarmos a ter luz e brilho, para reconstruirmos, uma e outra vez (as que forem necessárias) aquilo que nos rodeia. É da nossa natureza. Só temos de acreditar (e de ajudar as outras mulheres a acreditar também) que sim…

Texto de Sara Rodi

Fonte: Maria Capaz