Atualidade

13 de Novembro de 2013

A importância de ter um irmão

13.11.2013

Seja biológico, adotivo, gémeo ou até o amigo que é quase irmão, não importa. O que é importante é incentivar a cumplicidade entre eles

Vai ser complicado ver as discussões, ouvir os gritos, apartar as brigas, mas a recompensa virá quando chegar a casa e encontrar os seus filhos a brincar juntos. Ou ao perceber aquele olhar de cumplicidade entre eles quando fazem algo que não deveriam. Se ter um irmão é um ensaio para a vida, é natural que haja altos e baixos. E há também espaço para uma variedade de sentimentos, da admiração à inveja. A convivência é uma oportunidade para errar, testar o limite do outro, aprender a ter paciência, a admirar, a se frustrar e a amar. Este, aliás, é o desejo de todos os pais em relação aos seus filhos.

Esta companhia tem muitas funções. É com os irmãos que a criança tem mais oportunidade de aprender a socializar e enfrentar o mundo, enquanto os pais ficam com a tarefa de transmitir valores. Ou seja: no quotidiano, eles prestam atenção no que o outro está a fazer, na experiência vivida, no exemplo a ser seguido. Cabe aos pais a orientação mais ampla, a direção dos caminhos, a formar carácter. E com o irmão, por exemplo, a criança aprende a enfrentar melhor os primeiros dias na escola, a andar de bicicleta, a desenhar um cão «daquela» maneira… E não importa a ordem de nascimento: mais novo, do meio ou primogénito, todos aprendem uns com os outros.

Para quê tanta discussão?
Gémeos tão, mas tão diferentes que se tornam rivais; irmãs que disputam a atenção dos pais da infância à vida adulta. Sim, parece uma telenovela a ter lugar dentro de casa. Só que, por mais que deixem os pais malucos, as brigas entre irmãos acontecem. «Antes de perder a paciência, lembre-se do que eles podem aprender com o conflito. Deixe que conversem, discutam, negociem e resolvam sozinhos. Assim aprendem a negociar, a ceder, a trocar e a amar», diz o pediatra Paulo Oom.

Se algo passar do limite, claro, os pais devem intervir. Mas note-se que, muitas vezes, a briga é sinal de afeto. Mais difícil é quando os irmãos simplesmente se ignoram. «Sem brigas, mas com a possibilidade de um relacionamento no futuro frio e distante», diz a psicóloga Laurie Kramer, investigadora da Universidade do Illinois.

Algumas vezes parece que irmãos amam-se e odeiam-se, tudo ao mesmo tempo. E o facto é que as brigas esticam o stress para a família toda. A gestão é difícil, mas tem de ser feita. «O fundamental é procurar ser justo e saber que, apesar de irmãos, são pessoas diferentes e irão desenvolver-se de acordo com as próprias características», afirma Paulo Oom. Para o pediatra, a comparação também deve seguir critérios. «Pode gerar rivalidade ou um desinteresse, como se a criança pensasse “não vou tentar porque meu irmão é melhor do que eu…”».

Embora se trate de uma reação ao comportamento dos filhos, os pais têm uma função ainda mais importante ao observar cada um. Se não somos todos iguais, nada de tratamento em série. E a observação do adulto pode incentivar o respeito mútuo e garantir tratamento individual a cada filho.

Podem ser comparados?
Comparações não são más de todo. Fazem parte. «É importante evitá-las para não viver apenas em função disso. Se acontecer, não adianta sentir culpa. Somos comparados ao longo de toda a vida: na escola, temos de tirar boas notas e ter o melhor comportamento; quando nos apaixonamos, o amado pode querer ou não corresponder; para a faculdade, há sempre um processo seletivo, e no trabalho são escolhas constantes», diz Laurie Kramer. Os irmãos gémeos sofrem ainda mais com isto porque toda a gente procura as pequenas diferenças entre eles.

Outras diferenças
E quando as personalidades são demasiado diferentes e os irmãos não conseguem encontrar uma parceria? O papel dos pais, nestes casos, é incentivar o respeito, em primeiro lugar. Mas, por vezes, os pais podem pensar se não estão realmente a favorecer um em detrimento do outro. Questionam até se têm alguma predileção entre os filhos – mas tudo pode ser apenas uma reação. No livro No two alike, a psicóloga Judith Harris analisou investigações que apontavam que o tratamento desigual dos pais em relação aos filhos não causava as diferenças entre um e outro. «Uma criança muito ativa provavelmente será disciplinada mais duramente que a quieta», diz.

Diferença, respeito, amor, inveja, rivalidade, admiração são palavras que fazem parte do relacionamento entre irmãos – e não podem ser ignoradas pelos pais. Está tudo aqui. Uma relação para a vida toda, que vai acontecendo em cada aniversário, discussão, viagem, brincadeira. Uma briga ou outra vai acontecer. São irmãos, têm intimidade para isso. E estarão ligados para sempre.

 

Fonte: Sapo Crescer