Espaço Família | O nosso 1º Filho

Psicologia Clinica

20 de Maio de 2014

A depressão pós-parto não é banal

Muitas vezes vemos posts, cartoons, textos e desabafos acerca de uma mãe extremamente cansada e esgotada, quando percorremos as redes sociais. Efetivamente, a maternidade exige uma grande mudança, implicando uma alteração ao estilo de vida, diminuindo a disponibilidade para outras tarefas e mudando a identidade da mulher. No entanto, não podemos confundir estas alterações normais e saudáveis com uma depressão pós-parto. É negligente desvalorizar sentimentos tão fortes e intensos que constituem uma patologia bem descrita e conhecida.

Banalizar o sofrimento não acaba com ele e pode levar a que uma mulher deprimida não peça ajuda, podendo pensar que é normal que se sinta assim tão em baixo. Na realidade, não é normal estar deprimido em nenhuma fase da vida, incluindo no puerpério e, mais à frente, no decorrer da infância da criança. A depressão é uma doença e pode ser tratada com a ajuda certa. A psicoterapia torna-se uma ferramenta fundamental para ultrapassar esta patologia e para evitar futuras recaídas, a par com a avaliação do médico para eventual intervenção psicofarmacológica. Uma depressão pós-parto que não é tratada, pode perdurar anos e não é raro receber pacientes em consulta com queixas depressivas que, ao procurarmos o início dos sintomas, vamos encontrar o nascimento de um filho que pode até já ser adolescente.

Diferente do blues pós-parto, em que existe uma perturbação breve e moderada do humor, num número muito elevado de mulheres, e também diferente da psicose puerperal, que atinge um número reduzido de mulheres e que se trata de uma perturbação psicopatológica grave, a depressão pós-parto surge por volta do 2.º ou 3.º mês após o nascimento do bebé. Os sintomas podem ser menosprezados porque estão associados ao cansaço e ao desgaste provocados pela acumulação dos cuidados a prestar ao bebé. No entanto, importa perceber se estes sintomas são intensos e permanecem no tempo: tristeza, perda de interesse, alterações no apetite, perturbações do sono, perda de energia, pessimismo ou culpabilidade, ideação suicida. Paralelamente, na depressão pós-parto os sintomas físicos costumam estar mais exacerbados: cefaleias, cansaço extremo, choro fácil, etc.. De acordo com a literatura, existem poucas evidências de que a depressão pós-parto esteja associada apenas a mecanismos biológicos (alterações hormonais e metabólicas). Neste sentido, muitos autores têm evidenciado a importância dos fatores biológicos, obstétricos, sociais e psicológicos como causas conjuntas para a depressão pós-parto. O suporte social é fundamental na prevenção da depressão pós-parto, com o cônjuge e a família como prestadores principais da mulher. Uma gravidez não desejada, as dificuldades na amamentação ou um parto difícil, podem ser o rastilho para o declínio do bem estar psicológico da mãe.

Importa aqui salientar que uma mãe deprimida está em sofrimento e precisa de ajuda. A culpabilidade característica da doença, juntamente com a conivência do exterior, pode levar esta mãe a não pedir ajuda, afetando a evolução dos sintomas, a relação conjugal e a relação mãe-bebé. A mãe deprimida pode sentir-se menos competente, menos ligada emocionalmente ao bebé, mais dependente de terceiros e mais isolada socialmente. E assim chegamos de um extremo a outro: num lado temos a “super-mãe”, fiel aos seus instintos, capaz de tudo, cuidadora incansável e ultra-resistente à frustração; do outro lado temos uma mãe que luta contra todas as dificuldades, internas, físicas e do exterior e que acaba o dia desesperada, mas que recebe uma certa confirmação do senso comum de que é normal sentir-se assim.

Nenhuma mãe é perfeita, mas é suposto que possa viver a maternidade de uma forma positiva e satisfatória. Não isenta de frustrações, a maternidade dá à mulher uma resposta emocional sobre que filha fomos e que mãe somos agora… em que mulher nos tornámos. E é suposto que sejamos capazes de usufruir do lado positivo da maternidade, sem lentes depressivas que ofusquem essa maravilhosa experiência. A depressão pós-parto não é banal e deve ser tratada.

Marta Russo

Psicóloga Clínica /Psicoterapeuta

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