Mães e Pais na 1ª Pessoa

Inês Simões 

Eu, Mãe

A crise não pode vencer

Li ontem um post de mais uma mulher que tem de adiar a maternidade por conta da crise.

Ler este tipo de posts é revoltante. Eles retratam sem filtros o que a crise faz ao nosso bolso, às decisões do nosso dia-a-dia, às decisões mais importantes da nossa vida, à nossa intimidade, às nossas relações, ao nosso corpo e ao nosso futuro. A crise vai muito além do nosso bolso, do nosso poder de compra. Mas não pode governar a nossa vida, não pode sentenciar decisões tão definitivas como ter ou não um filho. O primeiro filho.

Eu não sou ninguém para dar conselhos sobre quando é que pessoas que eu não conheço devem ou não ter filhos, mas falando em abstrato, falando para o âmago da questão:
não adiem mais.

Se sentem que querem ter um filho, que têm as vossas condições emocionais reunidas – seja idade, pai, vontade, um tecto – não esperem pelas condições económicas que vocês gostariam de ter para terem um filho. Um emprego estável, um rendimento fixo, um rendimento que acautela as despesas, obviamente são factores ponderantes, mas NÃO podem ser decisivos. A vossa decisão não pode depender das condições económicas, não pode depender da crise.
Porque se assim for podem perder a oportunidade de ter filhos, ou de pelo menos tê-los sem dificuldades maiores, sem ainda mais custos financeiros e emocionais, na idade que vocês consideram a ideal, no vosso timing.

É que a crise instalou-se confortavelmente e não vai a lado nenhum. Ela afundou o seu real traseiro no sofá das nossas salas, da nossa cozinha, e de lá não vai sair. Agora, ela não pode entrar dentro do quarto. Vamos levar ANOS a expulsar esta crise da nossa vida. Não vai ficar melhor tão cedo, pelo contrário. Por isso mesmo, não pode ser por causa dela que não podemos ter um filho.

Não deixem passar mais tempo, não esperem para daqui a um ano, ou dois, ou quando tiverem 33 anos ou 35. Ou 38. Não se deixem vencer mais um mês e mais outro e quando finalmente puderem, já ser tarde. Para o primeiro. Para depois ainda vir um segundo. Para a vossa estabilidade emocional, para a história de amor que talvez tenha servido de base à vossa vontade. Para aquele desejo de sempre que não se compadece com o facto de não terem encontrado um pai, mas que admitem secar por causa da crise.

NUNCA será a altura perfeita.

Se é muito complicado ter um filho, criar um filho em tempos de crise? Nem consigo imaginar o limite. Mas não é impossível. Crianças nascem em tempos de guerra, crianças nascem no meio do deserto, do lamento, do nada. Crianças nascem há milhões de anos e nessa altura não havia água canalizada, nem fibra ótica.

É muito batido dizer isto, é leviano, mas bem ou mal, melhor ou pior, os filhos criam-se. Mesmo que mais pobres do que gostaríamos, mesmo que não em condições ideais.

É triste, mas esta crise é tão brava que tantos de nós teremos de criar os nossos filhos mais pobres do que nós éramos com a idade deles. A prosperidade das gerações seguintes não é uma realidade, muito menos uma garantia ou uma promessa. Os nossos filhos vão ter um poder de compra menor do que o que nós tínhamos com a idade deles e do que aquele a que nós estamos habituados para nós hoje, ou melhor, ainda ontem.

É disso que não devemos ter medo. De perdermos euros a sério por termos filhos. Isso vai acontecer, vai ser uma complicação dos diabos. Repito, os nossos filhos vão ser mais pobres do que nós éramos com a idade deles. Principalmente com as solicitações, as rendas, as mensalidades disto e daquilo, os gadgets, os preços das milhares de coisas que temos de ter na nossa vida para nos sentirmos satisfeitos hoje em dia. Ou simplesmente porque os salários são cada vez mais baixos e todos os outros preços sobem. Quando somos obrigados a ter menos na nossa mão, que esse vazio nos permita fazer a separação do que realmente é primordial na nossa vida. E o nosso relógio biológico É.

É uma questão de aritmética, mas as contas impossíveis que terão de fazer à vida não podem levar a que o resultado seja = NÃO TER.

Esta pode ser a oportunidade de a geração Heidi fazer os seus filhos, a nova geração que aí vem, voltar aos tempos da Heidi, em que a frugalidade não era uma tendência cool, mas a nossa simples realidade.

Não podemos deixar que a crise vença a nossa família, mesmo que se torne uma família mais pobre, teremos sempre vidas mais ricas.

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