Mães e Pais na 1ª Pessoa

Rita Mendes 

Barriga Mendinha

A ambiguidade trabalho-ausência dos nossos filhos

E, ando aqui eu a matutar… como exorcizar o tempo que não temos com os nossos filhos…? A quem gritar esta dor, que nos dizem “não ter razão de ser”… mas que nos persegue sem dó nem piedade?

Ando a massacrar-me com isso, cada vez mais. Por mais que me digam: “Mas tu tens que trabalhar.. eles irão entender mais tarde…”.. sim, pois, mas e Agora? Agora, não é depois.  E eles não percebem nada de nada.. só que eu não estou presente, tanto como eu queria e eles, especialmente.

A vida é matreira. Dá-nos. E tira-nos. Oferece-nos a vida primeiro. A deles. Dos nossos bebés Amores. Uma, duas ou mais vidas encaixadas nas nossas. Traz-nos o sentido perdido ou nunca antes  encontrado. Tudo parece, finalmente encaixar. E depois, tira-nos o tempo para estar com eles, com as nossas sementes. Obriga-nos a lutar (ainda mais) pela vida. E isso significa.. sair de casa. Trabalhar. Dedicar energia a coisas e loisas. Querer ser melhor e mais forte que antes… Deixá-los na escola, nas avós, nas amas… E é essa a injustiça primeira, por que qualquer Mãe tem que passar, não acham? O afastamento do que nos foi umblilicalmente apegado…

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Cada história é uma história, cada rotina uma rotina, cada razão uma razão. Não quero, por isso, fazer da minha especial, antes pelo contrário, quero abraçar, com este sentimento, todas as Mães que passam por esta mesma ambiguidade de sentimentos e por este sentir que os dias importantes nos estão a fugir pelos dedos. Os dias dos nossos filhos.

Existe um sentimento de culpa constante na maioria das Mães, quando recomeçam a fazer a “sua vida”. Porque no fundo, acho que o nosso coração, a partir do momento que passamos pela experiência da Maternidade, começa a bater por mais do que só a “Nossa Vida”.. A “nossa vida”, deixa mesmo de ser Una e só passa a fazer sentido em conjunto. Com a deles. A “nossa vida” passa a ser, já mais do que nós mesmas. A nossa existência anterior, muitas vezes, até parece deixar de fazer sentido, por isso mesmo.

“Era tudo tão diferente”, “Sou outra pessoa”.. Pois, mas as contas continuam a ser as mesmas (ou mais, normalmente mais mesmo, que as crianças “saem caras”), a carreira não pára. A luta por ela, se existe, ou por um trabalho novo, se se tem que procurar por ele e sim… a própria realização, se não nos debruçarmos  só nas coisas práticas… a realização da Mulher. Porque no fundo, por muito Amor que tenhamos à Maternidade, também o temos que ter a nós mesmas.

E assim surge a tal ambiguidade. Estou a passar por ela, a todos os níveis. Mil projetos que estou a agarrar, alguns que ambicionava há tanto tempo, outros… surpresas que têem atropelado a minha vida assim, cheias de garra, força… e que me gritam ao ouvido: “É agora ou nunca, Rita!!”… Sinto-me feliz. Acho… Porque por outro lado, o cansaço toma conta de mim a cada esquina do dia e uma parte do meu corpo só quer dormir, parar, quando não estou a trabalhar. (e até às vezes quando estou lol.. disfarço é muito bem).. Outra parte,  parece que toma energéticos instantâneos cada vez que se aproxima a hora de ir buscar os diabretes à escola, à Avó ou ao Papai…É o Amor incondicional que nos dá a força escondida no meio da exaustão.

E assim se vai vivendo. Mas os dias passam. E os miúdos crescem. Menos perto de mim do que sonhei, quando os carregava na barriga e depois nos braços, com a certeza de que  nunca me iria separar deles. E isso entristece-me.

É a dicotomia da escolha. Terrível.. A separação física é inevitável, nos dias normais de uma “vida moderna”,é um desapego que tem que ser feito. Um “trabalho” difícil para uma Mãe apaixonada fazer. Talvez das tarefas mais difíceis a levar a cabo, durante toda uma vida (alguns afastamentos são permanentes, outros felizmente não e é aí que me centro, para não me sentir assim tão tristinha..sim, porque eles continuam”ali”).

Não me quero auto-recriminar. Sei que faço o melhor que posso. Tal como milhares de Mães lutadoras, que encontram a força sobre-humana, a cada passo da caminhada em direção a uma vida melhor.. mas… ai meu Deus.. custa tanto… ter que delegar o que não era suposto ser delegado. Sim.. para além de Mulher Moderna, também sou Mulher Selvagem… aquele bicho que precisa das crias por perto.

Fecho os olhos, por uns minutos e penso… ” Espero mesmo que ao menos que eles se venham a sentir orgulhosos de mim, e que saibam que a prioridade foram sempre eles”. E são. E isso o mais importante de tudo. E um objetivo a longo prazo.

Quando estou muito cansada (devido às poucas horas de sono que as tenras e próximas idades dos meus filhotes me dão e às horas e horas de trabalho que vai surgindo, ou eu própria faço surgir..) …dou por mim a teorizar meia “zonzon”, que talvez tivesse sido melhor  eu ter nascido numa época mais facilitista e tradicional para as Mulheres. Menos exigente. Mais natural e menos pesada. Qual emancipação qual quê!? Dj? Andar na estrada a “papar” kms? Reuniões constantes para “agarrar” aquele projeto? Pretensões artistas? Programas de televisão? Escrever, criar, e tal e tal? aiii tanta coisa, que canseira…… Tratar dos filhos, deixar os homens “sustentar” a casa e deixar o resto fluir… isso sim , é que era.. um real descanso. E eles, os filhos… na bainha das minhas saias 😉

E pronto, depois acordo dessa espécie de transe e…bem… quer dizer… pensando melhor… eu não seria pessoa para isso, pois não??

Ainda bem que ando mesmo a aprender artes circences no programa da RTP Desafio Total… acho que afinal, me podem dar um jeitaço (na parte logistica… o pior é que o coração não é virado para equilibrismos….)

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