Mães e Pais na 1ª Pessoa

João Moreira Pinto 

E os Filhos dos Outros

Guuuuuuuh

Pensei que fosse do conhecimento geral, mas ultimamente alguns amigos (e familiares) têm-se surpreendido com a capacidade de diálogo do MM (2 meses). De facto, a única forma que existe para desenvolver a linguagem (verbal e não verbal) das crianças é falar com elas. Desde quando? Há quem diga, que se deve falar quando ainda o bebé está dentro da barriga da mãe. Não respondo pela Mãe, mas falar para dentro de uma barriga não me parece uma coisa anatomicamente favorável. De qualquer forma, desde o nascimento que falamos muito com o MM. Fizemos o mesmo com o JM e, talvez por isso, ele hoje tenha um vocabulário e uma dicção invejável. Sou um pai babado, mas nada egoísta. E, apesar de haver cursos só dedicados a este tema, deixo-vos aqui alguns conselhos simples de como falar com um bebé nos primeiros meses. Podem não ser os melhores, mas são os que usamos cá em casa.

Um, olhar o bebé de frente. Nem sempre ele vai olhar de volta (principalmente durante o primeiro mês de vida), mas vai procurando a nossa cara. Quando falamos, articulamos palavras com a boca, mas toda a face se movimenta. Os olhos também falam, o nariz também fala, o sorriso também fala. A criança vai apreender os movimentos da face e vai tentar imitar. Um exercício giro é fazer caretas simples, como colocar a língua de fora ou sorrir vincadamente. O bebé acabará por tentar imitar a expressão. Primeiro de uma forma trôpega, depois largando autênticas gargalhadas.

Dois, falar pausadamente e articulando bem as palavras. Abebezar os termos só os torna mais confusos e difíceis de compreender. Refiro-me aos diminutivosinhos, queridinhos, com as bochechas apertadinhas, muito cutchi-cutchi. É diferente de trocar por sinónimos mais simples. Isto é, não está errado chamar pó-pó. As palavras simples e repetidas como pó-pó, mamã, bebé serão algumas das primeiras que o bebé vai identificar e reproduzir. Mas sempre bem articulado e deixando a criança ler a face, com calma, sílaba-a-sílaba, palavra-a-palavra.

Três, dar tempo ao bebé para responder. Independentemente da frase que lhe dissermos, é importante aguardar que ele responda. Pode ser um «guuuuuuuuh», pode ser um esgar da boca, ou um movimento dos braços. A resposta do bebé não tem que ser verbal. Provavelmente, nem será inteligível. Mas esta interacção bidireccional é importante para o desenvolvimento da linguagem, que (relembro) não é apenas verbal. Não interessa fazer um monólogo, quando queremos um diálogo. Mesmo que seja do tipo falador(a) é importante fazer pausas para que o bebé responda à sua maneira.

Quarto, repetir. Repetir o que o bebé diz (ou faz, linguagem não verbal), dá-lhe a sensação de que é correspondido. Isso estimula a que ele próprio repita a resposta. Mais, reproduzir ciclicamente sílabas como pá-pá-pá-pá, mã-mã-mã-mã, bé-bé-bé-bé, vai ajudá-lo nas tais primeiras palavras.

Posto isto, não é de estranhar a converseira louca que anda cá em casa. Mãe e pai a dizer «Guuuuuuuh», JM «AaaahGuuuuuuuh» e, no centro, o pequeno a orquestrar com um sorriso nos lábios.

E os Filhos dos Outros
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