Atualidade

16 de Novembro de 2015

Pessoas boas e pessoas más? Como explicar às crianças o que aconteceu em Paris?

“As crianças têm de se sentir seguras e amadas. Podem dizer de uma forma simples que estes ataques são muito raros e que os senhores maus foram apanhados, e que os adultos estão a fazer o que podem para impedir que isto volte a acontecer “, sugere Paul Coleman, autor do livro Finding Peace When Your Heart Is in Pieces.

Se para os adultos nem sempre é fácil entender, imagine-se para as crianças. Os atentados de Paris enchem os jornais, as televisões e os ecrãs e é preciso explicá-los a quem é mais pequeno. Mas como é que os pais podem explicar a noite mais longa de Paris?

Primeiro, há que ter em conta que as crianças absorvem as emoções dos pais. Se os pais estiverem muito ansiosos, essa ansiedade vai passar para a criança. “Por isso, o melhor é gerir primeiro as emoções antes de explicar a situação às crianças”, sugere Jean-Luc Aubert, psicólogo infantil, ao Le Monde. “É preciso evitar a dramatização”, aponta. “A criança vai ter medo se sentir medo à volta dela”.

Depois, não se deve deixar passar muito tempo até contar aos filhos. O conselho é de Harold Koplewicz, presidente do Child Mind Institute, em entrevista à Time. O volume de informação a correr por todo o lado, os comentários em família ou entre amigos, na escola e em locais públicos, vão despertar a curiosidade da criança. Ignorar só vai aguçar mais a curiosidade e o medo.

As crianças devem ser incentivadas a falar, a expressar o que estão a pensar, sentir, ou o que ouviram. O diálogo tranquilo é uma boa ferramenta para não levantar ânimos nos miúdos. “Lembre-se: não tem de dar mais detalhes às crianças do que aqueles que elas pedem”, adverte o psicólogo. Ou seja, responder: sim. Inundar a criança de informação, factos sobre os atentados e números: não.

Não se preocupe com as palavras. “Radicalismo islâmico”, “jihadismo” ou “atentados terroristas” são termos que devem ficar na gaveta. Todos os psicólogos ouvidos pelas duas publicações sugerem que não se deve entrar em termos complicados. “Houve uns ataques em Paris e morreram algumas pessoas” é uma explicação simples indicada para iniciar o assunto. Depois, com o passar do tempo e com a idade, as crianças vão ouvindo mais informação noutros ambientes e, à medida que o assunto voltar a surgir, vai-se acrescentando informação.

O presidente do Child Mind Institute tem conselhos especiais para as crianças dos 6 aos 11 anos. “As crianças nesta idade são muito egocêntricas e acreditam que qualquer coisa que aconteça no mundo pode acontecer-lhe a elas”, diz Harold Koplewicz.

“As crianças têm de se sentir seguras e amadas. Podem dizer de uma forma simples que estes ataques são muito raros e que os senhores maus foram apanhados, e que os adultos estão a fazer o que podem para impedir que isto volte a acontecer “, sugere Paul Coleman, autor do livro Finding Peace When Your Heart Is in Pieces.

As reações ao sucedido e às explicações diferem de criança para criança. “Algumas podem querer passar mais tempo com os amigos, outras podem querer passar mais tempo sozinhas. As crianças processam as coisas de formas diferentes” e isso não é um problema, explica Koplewicz.

Mas porque é que estas coisas acontecem?

É uma das perguntas mais difíceis: “Porquê?” Jean-Luc Aubert responde: “Aqui podemos explicar que os atentados foram feitos por pessoas ‘muito, muito, muito doentes’ que fizeram uma coisa muito grave. E que nem os adultos compreendem os motivos para o que fizeram”.

Se a criança questionar se aquelas pessoas podem atacar os pais e a família, há que explicar que estes atentados acontecem poucas vezes. As crianças devem perceber o caráter excecional do acontecimento, destaca o psicólogo ao jornal francês.

Se tiver filhos adolescentes, há dados que se podem acrescentar à conversa. Coleman sugere que se explique o que fazer em casos de emergência, para onde se devem dirigir, caso aconteça alguma coisa, e a quem devem ligar. Aqui já se pode falar sobre violência e sobre o que significa estes conflitos. Depois há que continuar a rotina do para que a vida siga o percurso do dia-a-dia.

 

Fonte: Observador.pt

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