Mães e Pais na 1ª Pessoa

Sofia Ribeiro Fernandes  

Crónicas de Estetoscópio e Biberão

Carta ao meu Pai

São 24 horas, mais coisa menos coisa, desde mim até ao teu pescoço quente e suado de nervoso miudinho. São simples 24 horas que separam o meu perfume a pó de talco do meu Pai. A minha Mãe chama-te Macdreammy, tem o coração que bate mais forte sempre que ouve a tua voz e afaga-te o cabelo no sono. Conheço as tuas mãos pesadas que tacteiam a barriga: quentes, fortes e minhas. Conheço a voz veloz e forte que vem de ti… num passo apressado como tu. Mas não sei como és. A a Mãe diz que tens os olhos mais fascinantes do mundo, um mais preguiçoso que se fecha mais. A Mãe diz que a tua ruga acima do nariz te dá uma graça especial e que se lembra dela da faculdade. A Mãe diz que tem um pedaço de ti que vai ser sempre dela e só dela, o pedaço entre o cotovelo e e o ombro,  embora mo possa emprestar para dormir. A Mãe diz que escondes na velocidade das palavras um romântico inveterado. A mãe diz que gostas de flores. A Mãe diz que és um sonho…

Eu não quero que sejas um sonho. Quero que sejas de carne e osso. Que tenhas mãos grandes e mornas. Também quero um pedaço de ti só meu mas, posso escolher depois? Quero que me ensines as primeiras palavras e que me vejas crescer. Quero ir à praia contigo  e usar um biquini a fazer pandã com os teus calções. Quero que sejas o meu namorado para sempre. Quero que sejas simplesmente o meu Pai.

(E, isto é um segredo, mas vou contar: A Mãe diz que não podia ter escolhido melhor…)

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