Atualidade

15 de Abril de 2014

25 Abril. Mulheres acumulam emprego com educação dos filhos e lides da casa

Se hoje se espera do homem e da mulher a partilha de responsabilidades familiares, no Estado Novo a norma era outra: à mulher casada competia governar a casa e ao marido administrar os bens do casal.

Quarenta anos depois da democratização das relações entre marido e mulher, são mais elas que continuam ocupadas com as tarefas domésticas e com a educação dos filhos, não obstante trabalharem fora de casa, como eles.

A Constituição de 1976 consagra para homens e mulheres os mesmos direitos e deveres perante o trabalho e a educação dos filhos.

Contudo, de acordo com o relatório mais recente, de 2012, do Observatório das Famílias e das Políticas de Família, as mulheres empregadas gastam mais tempo do que os homens nas lides da casa e nos cuidados com os filhos.

Os dados, que se reportam ao III Estudo Europeu sobre a Qualidade de Vida, colocam Portugal como o país onde as mulheres trabalhadoras despendiam, em 2011, mais sete horas semanais do que os homens, em idênticas circunstâncias, a cozinhar ou noutras tarefas domésticas, e nos cuidados e na educação das crianças.

Numa Europa então a 27 Estados-membros, Portugal ultrapassava a média europeia – cinco horas semanais de diferença – quanto ao tempo gasto pelas mulheres nas lides da casa.

As estatísticas confirmam o que para a socióloga Maria das Dores Guerreiro, do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, ainda é uma evidência: as mulheres têm de ser “supermulheres”, mães, mulheres, profissionais e donas de casa, a menos que se mudem mentalidades.

“Uma tarefa hercúlea, 40 anos não chegam”, sustentou à agência Lusa, lembrando que “as gerações adultas continuam a transmitir esse modelo às gerações mais novas”.

Para a docente, que tem estudado o tema da conciliação entre trabalho e família, a revolução de mentalidades deverá passar obrigatoriamente pela escola, que tem de ensinar “valores e outras práticas” quer a meninos, quer a meninas.

“As mulheres aprenderam a cuidar dos filhos, não nasceram com esse instinto, e os homens também podem aprender, assim a sociedade o queira”, advogou, estendendo o princípio às tarefas domésticas.

As estatísticas, mais uma vez, são claras. Segundo o Observatório das Famílias e das Políticas de Família, apesar de ter aumentado o número de casais que escolhem partilhar a licença de parentalidade, os homens recorrem menos a este apoio social do que as mulheres.

Em 2012, os 16.862 pais que partilharam a licença representavam 19% do número total de nascimentos, contra 22% quando consideradas as mulheres que gozaram o subsídio parental inicial.

“Qual a mulher que abdica de ficar mais tempo com os filhos?”, questionou Maria das Dores Guerreiro.

Para a socióloga Sara Falcão Casaca, do Instituto Superior de Economia e Gestão, o trabalho a tempo parcial – uma bandeira do Governo – para uma mãe ou um pai se dedicar mais aos filhos representará um “retrocesso nas relações de género”, uma vez que a igualdade entre homens e mulheres passa pela “partilha das esferas pública e privada”.

A ex-presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género entende que, por exemplo, em alternativa, as políticas governativas deviam apoiar ambos os progenitores com o aumento da rede de oferta pública escolar para a primeira infância.

Se hoje se espera do homem e da mulher a partilha de responsabilidades familiares, no Estado Novo a norma era outra: à mulher casada competia governar a casa e ao marido administrar os bens do casal.

“Tínhamos legislação que definia e regulamentava a vida familiar, em que havia um chefe de família, o homem, e a mulher subordinava-se a ele, devia-lhe respeito, obediência e, até, era legítimo que o homem batesse na mulher, que a sancionasse, que a matasse para não ver quebrada e posta em causa a sua honra, em caso de infidelidade”, descreveu a socióloga Maria das Dores Guerreiro.

Depois da Revolução, as mulheres tiveram de esperar ainda mais quatro anos pelo fim da figura do chefe de família, mas, hoje, fruto do amparo institucional e legislativo, denunciam mais a violência doméstica, de que são as principais vítimas.

Fonte: iOnline